sexta-feira, 13 de abril de 2012

Fluxo de não-pensamentos

Ela estava sentada nesse banco sem encosto, naquela sala branca e impessoal somente admirando e sendo tragada aos poucos da realidade por aquela mistura única de cores e traços.

Ela sentia que poderia ficar parada ali para sempre. Na verdade não, ela não sentia. Não era capaz de sentir nada que estivesse além dos limites daquela moldura na parede. Ela desejava ser capaz de se fundir ao ambiente tranquilo e à música que ao preencher a sala tão suavemente dava a impressão de nem ao menos existir.

Naquele momento não havia nada no mundo além daquelas cores. O turbilhão de informações, problemas e sons que zuniam dentro de sua cabeça apenas alguns momentos antes, ao chegar àquela sala, tornaram-se tão dispensáveis que pareciam quase frívolos diante da genialidade expressa naqueles traços. Tudo fora daqueles limites era insignificante o bastante para ser completamente esquecido durante aqueles momentos de uma adoração quase religiosa.

Não era topor, eram todas as sensações possíveis de serem experimentadas eclodindo juntas, ao mesmo tempo. Numa sincronia de causar inveja em qualquer coreógrafo. Ela desejava ser capaz de viver suas emoções através daquela cores, se apaixonar naquele tom de vermelho, se refrescar naquele azul ou quem sabe se alimentar daquela matiz de verde.

A resposta à aura daquela sala não poderia ser nada diferente da total entrega que ela novamente provava. Mais do que a pura admiração, o desejo de ser absorvida por tudo aquilo, de se agarrar com unhas e dentes a todas aquelas sensações e não deixar por nada esse sentimento escapar.

Ela não sabe ao certo quanto tempo passou sentada naquele banco de madeira encarando a tela colorida tentando absorver cada detalhe como se a sua vida dependesse disso, ela nem ao menos se importa. Mas um bip soou ao longe, cruelmente arrancando-a de seu fluxo de não-pensamentos.

Relutante, ela reuniu sua coisas e foi embora. Sentindo que a aura tão perfeita daquela sala escapava por entre seus dedos a cada passo que ela dava para mais perto da porta e a cada novo pensamento que brotava em sua mente.

Ela parou embaixo do batente da porta, ainda dentro da sala, e olhou para trás. Numa vã tentativa de resgatar um restinho que fosse daquela harmonia perfeita. Nada feito, ela sorriu para si mesma e saiu definitivamente da sala, seu tempo tinha acabado.